O Rei ordenara, o Regente não teve outro remédio senão fazer.
A cerimónia seguia os ditames do protocolo do Reino: pompa mais que baste, o exército de assessores e dependentes nomeados pelo Rei (tinham mais era que lá estar), alguns Duques (os que não estavam engripados) e o Povo que nestas ocasiões fica sempre bem.
“Agora é que é!”
Esta era a frase-chave do discurso do Regente na inauguração da requalificada praça em frente ao renovado e lustroso palácio real, agora rebatizada como Praça da Prosperidade e do Futuro. As palmas e os “viva ao Regente!” não se fizeram esperar… da parte dos assessores e dependentes.
O Povo, representado por 14171 pessoas, manteve-se em silêncio na esperança de ouvir algo de novo. No convite, que ostentava o brasão da Rainha, em letras impressas a ouro, era dito que, após a inauguração da praça, haveria uma surpresa que deixaria todo o Reino de boca aberta. De facto…
“Meu nobre e honrado Povo trabalhador! Agora é que é! Sua Majestade, a Rainha, na sua eterna e desprendida humildade e bondade terá a honra de vos receber e anunciar-vos a boa nova.”
O Povo, nesse mesmo instante, rejubilou e deu vivas à Rainha. Finalmente as boas notícias iriam chegar.
As trombetas tocaram e, de par em par, abriram-se os grandes portões que davam acesso ao palácio real. Ao cimo da escada, como se de uma aparição se tratasse, uma figura feminina resplandecia luz e brilho. Era Ela!
Desceu a escadaria e veio misturar-se com os 14171 homens e mulheres que aguardavam uma solução.
“Agora é que é!”
Desta vez, o Povo manteve-se em silêncio, expectante…
“Meu nobre e honrado Povo, o Meu Reino, contrariamente ao que alguns dizem por aí, vive um período de grande crescimento e prosperidade. Não acreditem naqueles que só nos querem mal. Acreditem em Mim. Eu sei o que é melhor para vós. Só quero o vosso bem e tenho como prová-lo.
Ao Meu Povo quero oferecer o melhor que este Reino tem, aquilo que vós precisais: ofereço-vos este jardim, renovado e requalificado. Um investimento de um milhão e cento e cinquenta mil euros, sem recurso ao crédito, numa clara prova de que sei bem qual a vossa necessidade principal.”
“E emprego para nós?! Queremos trabalho!”, reclamava o Povo.
Nesse mesmo instante, as luzes apagam-se e a Rainha desaparece. O espetáculo tinha acabado.
O Povo, confuso, procura pelo Regente. Escondido, sem guião, refugiava-se falando ao telemóvel…