No seu silencioso e sombrio gabinete o Xerife gizava mais um dos seus planos de revitalização. Com sorte, seria desta que as ermas ruas de Beach Village voltariam a atrair visitantes de toda a área de Victory County e de toda a Purple Island. O passado recente transformara Jesus Street num local triste, sem gente, fazendo com que o comércio fosse fechando progressivamente. Muitos são os dias em que não se vê vivalma naquela rua e a cidade mergulha num silêncio sepulcral.
De súbito, um violento ronco irrompe por aquele gabinete de solidão. O Xerife levanta-se de imediato e dirige-se à janela. Olha em redor… Era só mais um condor de aço a cruzar os céus de Beach Village.
Da janela, orgulhoso, aprecia a obra feita. Francis City Hall Square transformara-se numa praça moderna, florida, sem carros, deserta e sem gente. Tudo obra sua e que merecia ser contemplada. Com o impedimento de circulação na praça, a Botica da esquina perdera os clientes, um dos Salloons fechara e o outro anseia pelos meses de verão a ver se recupera do longo inverno sem clientes.
Qualquer coisa se mexeu na praça!
Holy Ghost tirou as mãos dos bolsos!
O Xerife está cansado, agastado. Com os cofres vazios não sabe gerir os destinos de Beach Village. Quer fugir, mas não pode. Não o deixam. Como eram bons os tempos em que se julgava que havia petróleo na cidade. Naqueles tempos em que parecia que os poços eram inesgotáveis.
Apeteceu-lhe esticar as pernas e apanhar ar. Desceu as escadas até Francis Square. Holy Ghost apagou o cigarro e o seu semblante fechou-se de tristeza só de pensar que tinha de ir trabalhar. Teve sorte. O Xerife só queria mesmo dar um passeio pela praça que continuava deserta. Dirigiu-se até Jesus Street. Queria ver e ser visto. Aliás, sempre que lá ia, era só para esse fim.
Infelizmente, nada havia para ver. Ninguém lá estava que o visse. Passeio inglório.
Inesperadamente, um vulto no extremo oposto da rua surpreende o Xerife. Em contraluz, não era possível vislumbrar-lhe o rosto. A silhueta deste vulto, que aparecera em Light Square, dominava Jesus Street e, como o sol já ia baixo, a sua sombra alcançava as botas do Xerife. (parece exagero, eu sei, mas isto é um filme!)
Como em qualquer western que se prese, ouviu-se então o característico som de uma harmónica que não é possível aqui reproduzir. Seguiu-se um momento de silêncio absoluto…
A iluminação pública começou a acender-se. Já havia terminado a época natalícia e os plásticos coloridos que decoravam a rua tinham sido removidos, pelo que Jesus Street ia ficando razoavelmente iluminada.
Foi possível ver-lhe o rosto.
O personagem usava mascarilha. Não era o Zorro que esse não é para aqui chamado. Puxa do revólver e dispara dois tiros para o ar. Caiu um pombo. O Xerife insurge-se, puxa do telemóvel e digita um número. Passados alguns minutos, Francis Square, até aí deserta, enche-se de carroças com alguns dizeres coloridos impressos nas lonas: “Movement Co.” e “Environment Co.”. Ninguém ousou dizer nada antes do Xerife. Não fosse ele discordar e perderem o direito à carroça.
Contudo, um cowboy mais afoito irrompeu de entre a multidão e dirigiu-se ao Xerife: “o senhor é meu fã e eu vou ajudá-lo!”.
O Xerife, satisfeito, agradece. Afinal, esta já não era a primeira vez que este humilde homem o ajudava. Das outras vezes, às rédeas de potente carroça, acartou dezenas de cowboys e ilustres esposas para garantir a eleição do Xerife. Este era um homem com quem se poderia contar. Um homem de confiança.
“Come with me Little Ben!”, disse o Xerife.
Ao ouvir isto, lá no topo de Jesus Street, os olhos do vulto brilharam e, mais uma vez, a harmónica tocou…
(Nota: Botica é uma marca registada e foi utilizada sem autorização prévia do respetivo autor)











